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Cicatrizes

Sempre tento pensar que tudo acontece por um motivo... Mas, sinceramente, ainda não sei dizer por que, há uma semana, eu tinha que tropeçar na rua, menos de um minuto depois de começar a correr, e cair em cima do meu ombro direito. Foi como se eu quisesse dar uma cambalhota. Ralei as mãos no cimento, bati a cabeça (felizmente, na grama), e senti uma dor aguda no ombro. Fiquei estatelada no chão até que meu marido me alcançasse e me socorresse, enquanto as lágrimas escorriam. Mesmo assim, quando ele me perguntou se eu achava que tinha quebrado alguma coisa, nem imaginava que isso poderia ter acontecido. Fomos para o pronto-socorro ortopédico e, antes de sair o resultado do raio-X, o médico já adiantou o diagnóstico: você deve ter quebrado a clavícula . Fico pensando por que isso tinha que acontecer na minha vida, mas não consigo encontrar uma resposta. Por que um tombo tão besta, da minha própria altura, precisou causar tanto estrago assim a ponto de eu precisar fazer uma cirurgia?...

Homens que perdemos (por serem negros)

 Tenho várias coisas em comum com Jesmyn Ward: nasci apenas 3 dias depois da autora americana, ela no dia 01 de abril de 1977, e eu no dia 4 do mesmo mês e do mesmo ano. Também fui uma adolescente tímida e insegura, muito estudiosa e desde cedo uma leitora voraz. Adorava passar o tempo na biblioteca municipal e minhas brincadeiras sempre giravam em torno da minha escrivaninha. Entretanto, o que me diferencia de Jesmyn é o privilégio que tive por ser branca. Ao contrário da autora, que nasceu em uma família negra do Mississippi, eu nunca sofri nenhum tipo de abuso, nunca tive amigos que usavam drogas, que não tinham oportunidades de estudar ou de conseguir um emprego. Sempre me considerei parte da elite intelectual, tendo estudado em excelentes escolas e universidades, enquanto Jesmyn era a única negra em escolas predominantemente brancas, apenas tendo tido este acesso devido a bolsas de estudo. No livro “Homens que perdemos”, Jesmyn narra a morte de cinco homens importantes para ...

Viva a imperfeição!

Há seis meses, mudamos para um apartamento novo, em uma cidade nova. Deixamos o apartamento alugado anterior, onde morávamos havia cinco anos, por outro, também alugado e um pouco menor. O sonho de sair de lá somente para ir para o nosso próprio imóvel, que compramos na planta, ficou para depois, já que a obra está mais de um ano atrasada. Todos aqueles planos de termos uma casa planejada, digna de uma revista de arquitetura, foram postergados. Sempre almejei a perfeição em tudo. Nos estudos, queria tirar nota máxima em todas as matérias, sempre. No trabalho, buscava ser a funcionária mais elogiada. No piano, desejava tocar as músicas sem nenhum erro. Nada mais óbvio, portanto, que na minha casa eu também quisesse tudo impecável: design clean , objetos de decoração modernos, almofadas afofadas, tudo superorganizado e instagramável. Por esse motivo, quando estávamos escolhendo o apartamento atual, enxerguei vários defeitos, como a pintura malfeita, a marcenaria desalinhada, o espelho li...

O colibri

Quatro irmãs e uma mãe passam o dia em um quarto de hospital, em pleno verão. As irmãs se revezam de duas em duas, pois todas querem passar o máximo de tempo possível perto do pai que, aos 92 anos, está vivendo seus últimos dias. A mãe e esposa, segue ao seu lado com o mesmo carinho de sempre, mesmo depois de 67 anos de casados.  Não há nada mais que a medicina possa fazer. Só nos resta esperar até que ele dê o último suspiro. Suas cinco mulheres, sempre juntas, mimando o único homem da família naquela geração. "A respiração vai ficar mais rápida nas últimas 24 horas", diz a médica, que faz de tudo para que ele tenha o maior conforto possível. Os órgãos começarão a parar, um a um, conforme ficarem cansados. Ele não sente dor; toma apenas um analgésico comum e tem a expressão tranquila. Mas eu não sei de nada disso. Não sei nada sobre a morte, pois nunca acompanhei a partida de alguém tão próximo. Nos intervalos do revezamento, enquanto aguardo minha vez de entrar no quarto, l...

Ripple

Pelo caminho.  A nova minisserie da Netflix que me emocionou do começo ao fim. Em inglês, seu nome é Ripple , que significa ondulação , ou o impacto que as ações de uma pessoa possuem na vida das outras.  A história é baseada na vida de quatro pessoas desconhecidas e completamente diferentes, mas que de forma surpreendente se conectam, criando uma amizade imprevisível.  Fala sobre serendipidade , sobre estar no lugar certo na hora certa para que você possa encontrar essas pessoas.  Sempre imagino que se houvesse uma câmera filmando nossas vidas, veríamos muito mais coincidências do que aquelas que percebemos. Pois essa série é exatamente a câmera oculta que está nos filmando o tempo todo e descobrindo essas casualidades.  O enredo é leve e ao mesmo tempo profundo, abordando diversos temas sensíveis e delicados, como luto, separação e outras mágoas.  Deu vontade de maratonar os oito episódios de uma vez, mas preferi assistir um por dia, para poder degustar e...

Queria ser…

  Queria ser daquelas mulheres Que n ão sentem fome Nem sede Não passam frio Nem calor Que não suam Não se descabelam  Estão sempre plenas E chiques São calmas Pacientes  Falam devagarzinho  E baixinho Conseguem resistir a um docinho Param de comer quando estão satisfeitas Param de beber antes de ficarem bêbadas E não precisam provar todos os sabores da pizza Mas, eu...  Sinto tudo muito intensamente  Sou oito ou oitenta  Amo ou odeio No inverno, morro de frio  No verão, morro de calor  A bebida é gelada ou pelando Não gosto do morno Sinto muita fome Muita sede Fico eufórica  Ou arrasada Deve ser por causa do meu signo Ariana da gema Mas, se você não acredita nisso Então é pela minha personalidade mesmo Só sei que sou sempre intensa Ansiosa e falante Tenho muito amor pra dar E pra receber E que graça teria s er tão insossa? Não sentir Não se emocionar Não viver? ***** Me lembrei do texto que li nos quadrinhos da Mafalda (a Mônica da Arge...

Bom dia da mamãe

Mensagens de bom dia da mamãe...  07/01/2026 Bom dia! Que nunca nos falta fé e a presença de Deus em nós. 13/01/2026 Nada, nem ninguém, impede o agir de Deus em nossa vida. Bom dia !!! 26/01/2026 Que esta semana seja guiada por decisões acertadas. Deus à frente de tudo. Bom dia !!! 28/01/2026 Bom dia! O hoje e o amanhã estão nas mãos de Deus, que quer o nosso bem. Aleluia !!! 30/01/2026 Que sua caminhada seja guiada pela fé e iluminada pela graça do Senhor. Bom dia !!! 31/01/2026 Bom dia! Que a semente de fazer o bem esteja em nossos corações, hoje e sempre. Aleluia  !!! 03/02/2026 Hoje é dia de São Brás. Ele livrou o espinho de peixe da garganta de uma criança. Por isso, vamos receber a bênção na garganta. Tudo é fé. Agradeço. 05/02/2026 Acordar bem e com saúde é um tremendo privilégio. Bom dia !!! 06/02/2026 Que o amor de Deus ilumine seu caminho e prepare um final se semana de paz. Bom dia !!! 10/02/2026 Que Deus abençoe cada desejo que você carrega no coração.  E vamo...

Primeira viagem de trem

Pela primeira vez desde que me mudei, peguei o trem de São Paulo a Jundiaí. A expectativa era de que o trajeto duraria 1:30h mas, como era feriado e a via está em obras, acabou demorando 2h ao todo.  Para compensar a vontade de chegar logo e a ansiedade pelo fato do trem andar mais devagar que uma tartaruga e demorar um tempo considerável em algumas estações, fui me divertindo com os vendedores ambulantes que passavam (gritando) dentro do vagão. Tinha gente vendendo batata, pipoca doce, pururuca e amendoim. Até  vendedor de cerveja passou por ali! Vendedor de lençol por R$ 20 e de  Bobby Goods por R$ 10, incluindo o livrinho e 24 canetinhas (segundo ele, mais barato que na Shopee).  Copo da Virgínia (wtf?) para fazer shake por R$10.  Aceita crédito, débito ou PIX. Devia estar barato mesmo pois um dos passageiros  comprou vários e disse que iria revender!  Carteira da Calvin Klein unissex, nas cores preta, marrom e "nudes". P elícula 3D e carregador de ...

Ano Novo, Casa Nova

 Faz tempo que não comemoro o Ano Novo, ao contrário de alguns anos atrás, quando costumava ir a festas badaladas ou praias com fogos de artifício. Ultimamente, tenho ficado em casa, dormido antes da meia-noite e nem os fogos na TV tenho visto. Parece que o novo ano é apenas uma continuação do ano anterior, e não o início de um novo ciclo. O que antes me causava lágrimas de emoção por começar algo novo, agora não me emociona mais.  Não sei se isso se deve à maturidade, ao casamento ou a algum outro motivo não identificado. O fato é que, quando eu era mais jovem, tinha mais disposição para viajar para uma outra cidade, me divertir em uma festa e ficar acordada até o amanhecer do primeiro dia do ano. Hoje, penso que vou gastar um dinheiro absurdo para ter que ficar em pé, rodeada de muita gente e tendo que usar um banheiro público. Que preguiça...  Este ano, ainda por cima, o dia primeiro de janeiro também marcou o primeiro ano da morte do meu pai. Ao mesmo tempo que passou...

Soco no estômago

  Um soco no estômago. Foi o que senti ao ler “Pequeno manual antirracista”, de  Djamila Ribeiro. Percebi que todos somos racistas, por vivermos em um país com racismo estrutural desde a época da colonização. E também que, apesar de eu sempre ter apoiado a causa, pouco tenho efetivamente contribuído para combater o preconceito. O silêncio nos torna responsáveis pela manutenção do racismo.  O livro, como o próprio nome diz, é bem curto e fácil de ler, literalmente um manual prático sobre o que podemos fazer no nosso dia a dia para disseminar a cultura antirracista.  Como uma mulher branca, devo primeiramente reconhecer que tive privilégios em relação aos negros e repudiar falas ou atitudes racistas sempre que percebê-las ao meu redor.  Como líder de equipe, devo atuar na minha empresa para promover a equidade entre brancos e negros, tanto na contratação quanto na promoção desses profissionais para cargos de liderança. Como leitora, devo ler autores negros, para a...

Trevas

  Sempre soube que eu era uma pessoa típica da era moderna, acostumada com água encanada (e quente), energia elétrica e, recentemente, com a internet sem fio. Não consigo me imaginar vivendo em uma época sem esses pequenos luxos… Mas, quando realmente ficamos sem esses recursos básicos é que valorizamos a importância - e o uso frequente - deles. Sabe quando você machuca um dedinho e só aí percebe todas as vezes que precisa dele?  É assim que me sinto há dois dias sem energia elétrica em São Paulo. Ainda continuo a apertar o interruptor em todos os cômodos que entro, por pura força do hábito. Esquentar a comida no fogão, usando uma caixa de fósforo, me fez sentir como se vivesse no século passado. Nem o filtro de água funciona, pois é ligado na tomada. E o jantar, ao invés da luz de velas, foi iluminado por uma luminária USB, conectada a um power bank…  Menos mal que o elevador está funcionando com o gerador e o chuveiro a gás está esquentando, já que é ligado por uma bate...

Luto

Desabafos de uma recém-viúva depois da morte de seu querido marido, com quem foi casada por 67 anos...   Primeiro mês... É assim, filha. Há momentos que fico bem, outros penso que não vou suportar. É preciso ter fé e coragem pra não afundar. Mas vai passar, não sei quando. O lugar na mesa...vazio. Na sala de TV.... não tem ninguém. Na hora de ir pra bocha, ninguém me chama. No quarto...também não o encontro. No banheiro, ninguém para eu enxugar as costas. Na feira, agora vou só. No horário da missa, TV desligada. Ao acordar, na hora do banho, ao deitar, não me pede ajuda.  Cadeira do papai sem aquele ranger... A casa, sem vida. Na bocha, o parceiro sem o parceiro. Os R$ 2 não preciso mais reservar... No coração ♥️, saudade sem fim. Nos olhos, lágrimas que correm. No peito, um aperto.  E assim vou vivendo meus dias... Que coisa que é a morte.  Não me deixe tropeçar, nem desistir, mas fortaleça-me Senhor, para que eu possa prosseguir. Segundo mês... Acabei ...

Literatura & Empatia

O mundo mudou muito nos últimos 100 anos. Avançamos na medicina, nas ciências e na tecnologia. Descobrimos novas vacinas, melhoramos a nossa higiene, melhoramos as leis trabalhistas, criminalizamos a misoginia, o racismo e a homofobia.  Mas, será que evoluímos tanto assim como humanidade? Ainda vemos tantos casos de racismo não declarado, de misoginia ou etarismo, entre outros preconceitos, que às vezes parece que não saímos do século XIX. Temos a impressão que damos um passo para a frente e dois para trás.  *** Este ano, li diversos livros que me fizeram pensar sobre empatia , ou em alguns casos, sem nem mesmo conseguir imaginar como seria estar no lugar dessas pessoas...   Um livro que me fez sentir  a realidade dos negros no período da escravidão foi "Um defeito de cor", de Ana Maria Gonçalves. A escritora fala sobre a forma em que eles foram escravizados no início do século XIX, sobre o modo cruel em que foram trazidos nos navios da África para a América, s...