Skip to main content

Literatura & Empatia

O mundo mudou muito nos últimos 100 anos. Avançamos na medicina, nas ciências e na tecnologia. Descobrimos novas vacinas, melhoramos a nossa higiene, melhoramos as leis trabalhistas, criminalizamos a misoginia, o racismo e a homofobia. 

Mas, será que evoluímos tanto assim como humanidade? Ainda vemos tantos casos de racismo não declarado, de misoginia ou etarismo, entre outros preconceitos, que às vezes parece que não saímos do século XIX. Temos a impressão que damos um passo para a frente e dois para trás. 

***

Este ano, li diversos livros que me fizeram pensar sobre empatia, ou em alguns casos, sem nem mesmo conseguir imaginar como seria estar no lugar dessas pessoas...  

Um livro que me fez sentir a realidade dos negros no período da escravidão foi "Um defeito de cor", de Ana Maria Gonçalves. A escritora fala sobre a forma em que eles foram escravizados no início do século XIX, sobre o modo cruel em que foram trazidos nos navios da África para a América, sobre como eram tratados pelos seus patrões e como tiveram que abdicar da sua cultura, da sua religião e até do seu nome para se  moldarem ao que o branco considerava correto. 

A escravidão velada vivida na época pós-abolição também é tratada no livro "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior, que relata a história de uma família que trabalha em uma fazenda no Nordeste do Brasil. Apesar de não serem considerados escravos e viverem do trabalho nas fazendas, não recebiam salário, não possuíam liberdade de ir e vir e muito menos oportunidades de sair daquela vida para outra melhor. 

Já o livro "O avesso da pele", de Jefferson Tenório, descreve a realidade de como é ser um negro no Brasil nos dias atuais, de ser sempre tomado por um ladrão, um usuário de drogas ou um mau caráter, mesmo que você esteja somente caminhando tranquilamente pela rua. Não consigo imaginar as dificuldades pelas quais essas pessoas passam, apenas por terem uma cor de pele mais escura. Se privam de oportunidades de trabalho, são julgadas quando entram em um restaurante ou em uma loja e são presas (ou mortas) sem nenhuma justificativa. 

Não é à toa que estes foram considerados os três melhores livros brasileiros do século XXI

***

Saindo um pouco da temática racial, também li "Trinta segundos sem pensar no medo", de Pedro Pacífico, em que ele descreve como foi difícil se assumir como um homem homossexual, principalmente pela expectativa da sociedade de que ele se casasse com uma mulher e tivesse filhos. Ao tentar atender a essas expectativas e se encaixar no "padrão" que lhe era imposto, teve diversas crises de ansiedade, até que ele conseguisse se entender, e entender por que estava sentindo tudo aquilo. 

Já no livro "As impacientes", a camaronesa Djaïli Amadou Amal faz com que nos coloquemos no lugar de três mulheres muçulmanas, que são obrigadas a se casar com o homem que sua família escolhe para elas, a aceitar tudo o que os maridos fazem (sejam eles bons ou maus), e ainda por cima a ter muita paciência... 

A religião também é tema de "Hibisco Roxo", da diva nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Porém, neste caso, a história relata como a imposição do catolicismo em um país africano pode gerar um fanatismo religioso, se voltando contra a própria origem e a cultura africanas para endeusar tudo o que vem do homem branco europeu.


Eu poderia listar aqui muitos outros livros que me fizeram praticar a empatia...

Mas vou me ater à ideia de que os livros nos trazem um conhecimento gigante sobre essas outras realidades, e é esse conhecimento que permite nos colocarmos no lugar dessas pessoas e sentir o que elas sentem. É esse conhecimento sobre a diversidade que nos traz outras perspectivas e nos ajuda a respeitar outras culturas, outras religiões ou outras orientações sexuais diferentes das nossas.

Além disso, o conhecimento obtido através da literatura também nos traz alteridade, que é a capacidade de entender a individualidade do outro e respeitar as diferenças. E, no dia-a-dia, isso significa ter a capacidade de aceitar as opiniões das pessoas que pensam de forma diferente da sua, sem julgamento ou polarização.

Comments

Popular posts from this blog

Meu pai

Meu pai foi um homem muito bom.  Bom marido, bom filho, bom pai. Até bom genro ele foi, o preferido da minha avó. Há alguns anos, postei uma foto com ele no Dia dos Pais dizendo que ele era o pai mais amoroso e carinhoso do mundo. E essa é a mais pura verdade! Em uma casa só de mulheres, sempre tratou sua esposa e suas quatro filhas com muito amor e respeito. Foi casado durante 67 anos com a minha mãe e, mesmo depois de todos esses anos, eles ainda andavam na rua de mãos dadas e dormiam de conchinha. 💗 Nos últimos anos, talvez porque ele sabia que não estaria conosco para sempre, queria todas as filhas por perto e era um grude com a minha mãe. Todos os dias, eles iam jogar bocha juntos e assistiam à missa na TV abraçadinhos. Minha mãe não podia nem sair para ir ao mercado que ele já perguntava onde ela estava!   Hoje, dia 21 de abril de 2025, meu pai estaria fazendo 93 anos. Mas, infelizmente, ele nos deixou no dia primeiro de janeiro deste ano, depois de 10 di...

Rosas roubadas

Hoje vi uma roseira e fiquei lembrando da época em que recebíamos rosas roubadas, na nossa adolescência la em garça... que saudade! como era bom acordar e ganhar um presentinho desses, nem sempre com bilhetinho mas sempre nos fazia sorrir! Será que os homens ainda são românticos assim?

As cores da vida

" Eu costumava achar que eu era a pessoa mais estranha do mundo, mas logo pensei: tem muita gente no mundo. Tem que ter alguém como eu, que se sinta bizarra e imperfeita, da mesma maneira como eu me sinto ".    A frase acima é de Frida Kahlo, uma das pintoras mais reconhecidas no mundo. Ela não se enquadrava nos padrões de beleza mas, mesmo assim, todos se apaixonavam por ela! Homens e mulheres se sentiam atraídos pela sua personalidade exótica, pelas suas roupas coloridas e pela sua irreverência.  Hoje em dia, além de ser eternizada em suas obras, tornou-se também uma figura comercializada em tantos pôsteres, camisetas, canecas e outros objetos, que exibem suas fotos e frases de forma deliberada.  Mas me pergunto se toda essa gente que usa as estampas de Frida realmente sabem quem foi essa personalidade, além das sobrancelhas unidas. Mais que uma pintora surrealista, foi feminista, comunista e nacionalista, entre muitas outras coisas. Era ousada e seu comportam...