Sempre tento pensar que tudo acontece por um motivo...
Mas, sinceramente, ainda não sei dizer por que, há uma semana, eu tinha que tropeçar na rua, menos de um minuto depois de começar a correr, e cair em cima do meu ombro direito.
Foi como se eu quisesse dar uma cambalhota. Ralei as mãos no cimento, bati a cabeça (felizmente, na grama), e senti uma dor aguda no ombro. Fiquei estatelada no chão até que meu marido me alcançasse e me socorresse, enquanto as lágrimas escorriam.
Mesmo assim, quando ele me perguntou se eu achava que tinha quebrado alguma coisa, nem imaginava que isso poderia ter acontecido. Fomos para o pronto-socorro ortopédico e, antes de sair o resultado do raio-X, o médico já adiantou o diagnóstico: você deve ter quebrado a clavícula.
Fico pensando por que isso tinha que acontecer na minha vida, mas não consigo encontrar uma resposta. Por que um tombo tão besta, da minha própria altura, precisou causar tanto estrago assim a ponto de eu precisar fazer uma cirurgia?
Será que é pra eu aprender a fazer as coisas com a mão esquerda e fazer tudo bem mais devagar, já que estou fazendo com uma mão só e ainda por cima a não dominante?
Pra não me preocupar com a aparência, ficar sempre descabelada (já que não consigo erguer o braço direito nem para pentear meu cabelo) e não querer ter tudo super arrumado (pois não consigo nem dobrar uma camiseta)?
Ou para o meu marido me ajudar mais com as atividades da casa e eu ter que depender dele para tudo, inclusive para comer, tomar banho e me trocar?
Talvez, ainda, para eu ter tempo de fazer as coisas que eu queria fazer, assistir aos meus filmes, fazer os meus cursos, ler os meus livros…
Estou me sentindo como a Marisa, personagem do livro “Descontente”, que queria tanto parar de trabalhar que acabou sofrendo um acidente e conseguiu o que queria. Eu também pedi para ter mais tempo, para não ter que trabalhar tantas horas por semana, mas agora que estou de licença estou entediada porque o tempo não passa.
Por que isso foi acontecer logo agora, que eu tinha conseguido conquistar minhas metas de voltar a correr 10 km e de voltar a tocar piano? Em plena véspera de implantação do projeto em que estou trabalhando há cinco anos, sem saber em que cliente estarei trabalhando a partir do mês que vem?
E por que, justo agora, que eu tinha mudado para o interior, estava praticando exercícios com frequência e levando uma vida muito mais tranquila, do jeito que eu sempre quis? Agora que eu estava tão feliz e tão realizada com a minha vida, com o meu marido e com o meu trabalho?
Talvez seja por isso que eu não tinha feito nenhum plano de viagem nas minhas férias, por isso que eu não tenha passado naquela entrevista para um novo projeto: eu já estava predestinada a esse acontecimento.
Mesmo assim, vou perder muitas coisas que estavam planejadas: um show, uma trilha, uma exposição... algumas consultas e agendamentos que eu tinha feito, planos de encontrar os amigos, ir ao cinema e à bienal do livro. Todos esses planos ficarão pausados durante meu período de recuperação enquanto eu vivo uma vida temporária.
Definitivamente, não tenho nenhuma dessas respostas. Só sei que amanhã vou passar por uma cirurgia de baixo risco, que minhas chances de recuperação são muito boas e que depois de algum tempo (que para mim com certeza irá parecer uma eternidade), provavelmente vou voltar a fazer tudo o que eu estava fazendo antes.
Sei que meu problema tem solução e que devo agradecer por não ter acontecido nada pior: não tive nenhum trauma por ter batido a cabeça, não vou perder nenhum movimento nem nenhuma parte do corpo, não perdi minha vida.
Também vou poder voltar a trabalhar depois de algumas semanas, principalmente porque trabalho em casa, sentada no computador, sem precisar dirigir nem fazer esforço.
Se tenho medo? Muito! Não da cirurgia em si, pois confio que vai dar tudo certo no procedimento; mas tenho medo da dor que ainda vou sentir por um bom tempo até essa fratura cicatrizar.
Essa semana foi literalmente uma tortura, só aguardando o dia da cirurgia para que tudo comece a melhorar. As horas não passavam, o tédio por não conseguir fazer nada além de ler e assistir TV era grande e o desespero frequentemente me invadia através de crises de choro. Só quero pedir paciência para superar essa fase e poder retomar minha vida.
Vou levar de lembrança uma cicatriz, um parafuso e uma placa metálica no meu corpo, com a certeza de que cada uma dessas marcas conta uma parte da minha história e me deixa mais forte para o que virá por aí.
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