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O colibri

Quatro irmãs e uma mãe passam o dia em um quarto de hospital, em pleno verão. As irmãs se revezam de duas em duas, pois todas querem passar o máximo de tempo possível perto do pai que, aos 92 anos, está vivendo seus últimos dias. A mãe e esposa, segue ao seu lado com o mesmo carinho de sempre, mesmo depois de 67 anos de casados. 

Não há nada mais que a medicina possa fazer. Só nos resta esperar até que ele dê o último suspiro. Suas cinco mulheres, sempre juntas, mimando o único homem da família naquela geração.

"A respiração vai ficar mais rápida nas últimas 24 horas", diz a médica, que faz de tudo para que ele tenha o maior conforto possível. Os órgãos começarão a parar, um a um, conforme ficarem cansados. Ele não sente dor; toma apenas um analgésico comum e tem a expressão tranquila. Mas eu não sei de nada disso. Não sei nada sobre a morte, pois nunca acompanhei a partida de alguém tão próximo.

Nos intervalos do revezamento, enquanto aguardo minha vez de entrar no quarto, leio "Um Defeito de Cor". Como se a situação atual não fosse difícil o bastante e eu precisasse de um livro ainda mais pesado do que a minha realidade. Leio até a metade durante esses dias; depois disso, preciso parar de ler aquela história por alguns meses para respirar.

No primeiro dia do ano, tudo está fechado, inclusive o café do hospital onde eu costumava passar esses períodos de leitura, sentada nas mesas ou sofás, curtindo ar-condicionado. Mas, nesse dia, passo o tempo todo na recepção, em uma cadeira desconfortável e morrendo de calor, com apenas a brisa fraca e o barulho alto de um ventilador de parede.

Saio do hospital para dar uma volta no quarteirão, esticar as pernas e tomar um ar. Já é fim de dia e o horário de visitas está acabando. A partir das 20 horas, as quatro irmãs irão para casa e apenas minha mãe dormirá no hospital com meu pai.

Enquanto caminho, peço a Deus para que leve meu pai. Digo a Ele que cuidaremos da mamãe, que meu pai pode descansar. Não consigo mais vê-lo naquela situação, já inconsciente há alguns dias e com a respiração ofegante. Ele precisa ir para o céu encontrar sua mãe e sua irmã querida.

Na rua, as mangueiras estão carregadas. Eu e minha irmã tentamos pular para alcançar uma manga madura na árvore, por pura falta do que fazer — ou para que nosso pensamento se ocupe de alguma coisa, para termos algum objetivo naquele momento. De repente, vejo um colibri. Ele olha fixamente nos meus olhos por alguns segundos. Sinto aquilo como mágica: ver aquele animalzinho lindo e indefeso, batendo as asas freneticamente bem na minha frente.

Minha irmã não consegue alcançar a manga, mas o rapaz do estacionamento ao lado vê a cena e oferece uma de presente para ela. "Aquela árvore não é boa", ele diz. "Essa aqui é da mangueira da outra rua, pode levar que é bem melhor."

Voltamos para a recepção do hospital. Minha irmã levando a manga que acabava de ganhar e eu com a imagem do colibri gravada na mente. Alguns minutos depois, minha outra irmã, que estava no quarto, desce para nos dar a notícia que mais temíamos... aquela para a qual ninguém nunca está preparado, nem mesmo quando passamos o dia rezando para que ela aconteça.

A partir daí, a ordem dos acontecimentos, bem como as nossas emoções, são muito confusas. As cinco mulheres aguardam os últimos preparativos em uma sala do hospital, muito tristes e pensativas sobre como será nossa vida a partir de agora. Ao mesmo tempo, temos um ataque de riso ao ver minha irmã ainda segurando sua manga. Assim como Tom Hanks com a sua bola no filme Náufrago, aquela fruta tinha virado seu apoio psicológico naquele momento.

Saímos de lá aliviadas e anestesiadas, tentando focar nas coisas práticas. Uma dualidade de sentimentos nos preenche: ao mesmo tempo em que não queremos ver as pessoas que amamos sofrendo, também não suportamos o fato de que elas tenham que partir.

Logo depois, uma chuva torrencial cai na cidade, alagando as ruas enquanto precisamos escolher a madeira do caixão, a mensagem da coroa de flores e a roupa que meu pai irá usar. Parece que a cidade inteira chora pela morte do meu pai...

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