Há seis meses, mudamos para um apartamento novo, em uma cidade nova. Deixamos o apartamento alugado anterior, onde morávamos havia cinco anos, por outro, também alugado e um pouco menor. O sonho de sair de lá somente para ir para o nosso próprio imóvel, que compramos na planta, ficou para depois, já que a obra está mais de um ano atrasada. Todos aqueles planos de termos uma casa planejada, digna de uma revista de arquitetura, foram postergados. Sempre almejei a perfeição em tudo. Nos estudos, queria tirar nota máxima em todas as matérias, sempre. No trabalho, buscava ser a funcionária mais elogiada. No piano, desejava tocar as músicas sem nenhum erro. Nada mais óbvio, portanto, que na minha casa eu também quisesse tudo impecável: design clean , objetos de decoração modernos, almofadas afofadas, tudo superorganizado e instagramável. Por esse motivo, quando estávamos escolhendo o apartamento atual, enxerguei vários defeitos, como a pintura malfeita, a marcenaria desalinhada, o espelho li...
Quatro irmãs e uma mãe passam o dia em um quarto de hospital, em pleno verão. As irmãs se revezam de duas em duas, pois todas querem passar o máximo de tempo possível perto do pai que, aos 92 anos, está vivendo seus últimos dias. A mãe e esposa, segue ao seu lado com o mesmo carinho de sempre, mesmo depois de 67 anos de casados. Não há nada mais que a medicina possa fazer. Só nos resta esperar até que ele dê o último suspiro. Suas cinco mulheres, sempre juntas, mimando o único homem da família naquela geração. "A respiração vai ficar mais rápida nas últimas 24 horas", diz a médica, que faz de tudo para que ele tenha o maior conforto possível. Os órgãos começarão a parar, um a um, conforme ficarem cansados. Ele não sente dor; toma apenas um analgésico comum e tem a expressão tranquila. Mas eu não sei de nada disso. Não sei nada sobre a morte, pois nunca acompanhei a partida de alguém tão próximo. Nos intervalos do revezamento, enquanto aguardo minha vez de entrar no quarto, l...