Tenho várias coisas em comum com Jesmyn Ward: nasci apenas 3 dias depois da autora americana, ela no dia 01 de abril de 1977, e eu no dia 4 do mesmo mês e do mesmo ano. Também fui uma adolescente tímida e insegura, muito estudiosa e desde cedo uma leitora voraz. Adorava passar o tempo na biblioteca municipal e minhas brincadeiras sempre giravam em torno da minha escrivaninha. Entretanto, o que me diferencia de Jesmyn é o privilégio que tive por ser branca. Ao contrário da autora, que nasceu em uma família negra do Mississippi, eu nunca sofri nenhum tipo de abuso, nunca tive amigos que usavam drogas, que não tinham oportunidades de estudar ou de conseguir um emprego. Sempre me considerei parte da elite intelectual, tendo estudado em excelentes escolas e universidades, enquanto Jesmyn era a única negra em escolas predominantemente brancas, apenas tendo tido este acesso devido a bolsas de estudo. No livro “Homens que perdemos”, Jesmyn narra a morte de cinco homens importantes para ...
Há seis meses, mudamos para um apartamento novo, em uma cidade nova. Deixamos o apartamento alugado anterior, onde morávamos havia cinco anos, por outro, também alugado e um pouco menor. O sonho de sair de lá somente para ir para o nosso próprio imóvel, que compramos na planta, ficou para depois, já que a obra está mais de um ano atrasada. Todos aqueles planos de termos uma casa planejada, digna de uma revista de arquitetura, foram postergados. Sempre almejei a perfeição em tudo. Nos estudos, queria tirar nota máxima em todas as matérias, sempre. No trabalho, buscava ser a funcionária mais elogiada. No piano, desejava tocar as músicas sem nenhum erro. Nada mais óbvio, portanto, que na minha casa eu também quisesse tudo impecável: design clean , objetos de decoração modernos, almofadas afofadas, tudo superorganizado e instagramável. Por esse motivo, quando estávamos escolhendo o apartamento atual, enxerguei vários defeitos, como a pintura malfeita, a marcenaria desalinhada, o espelho li...