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Homens que perdemos (por serem negros)

 Tenho várias coisas em comum com Jesmyn Ward: nasci apenas 3 dias depois da autora americana, ela no dia 01 de abril de 1977, e eu no dia 4 do mesmo mês e do mesmo ano. Também fui uma adolescente tímida e insegura, muito estudiosa e desde cedo uma leitora voraz. Adorava passar o tempo na biblioteca municipal e minhas brincadeiras sempre giravam em torno da minha escrivaninha.

Entretanto, o que me diferencia de Jesmyn é o privilégio que tive por ser branca. Ao contrário da autora, que nasceu em uma família negra do Mississippi, eu nunca sofri nenhum tipo de abuso, nunca tive amigos que usavam drogas, que não tinham oportunidades de estudar ou de conseguir um emprego. Sempre me considerei parte da elite intelectual, tendo estudado em excelentes escolas e universidades, enquanto Jesmyn era a única negra em escolas predominantemente brancas, apenas tendo tido este acesso devido a bolsas de estudo.

No livro “Homens que perdemos”, Jesmyn narra a morte de cinco homens importantes para ela, enquanto fala sobre sua própria vida e sobre como o racismo estruturado impactou todos estes acontecimentos aparentemente isolados.

Ela fala sobre a concepção das famílias negras, muitas vezes abandonadas pelo pai provedor e sustentadas por mulheres fortes e guerreiras; sobre a falta de perspectiva dos jovens, que não tinham nenhum incentivo para terminarem os estudos e buscarem um emprego digno, que muitas vezes lhes eram negados apenas pela cor de sua pele; e também por estes jovens no fim acabarem se rendendo às drogas e ao álcool como forma de sair desse labirinto.

Fala também sobre seus próprios traumas, sua depressão e sua falta de autoestima, que eram compartilhados por todos os negros naquela época, naquele local (ou será que até hoje, em muitos outros lugares também?).

Não me tornei uma escritora consagrada como ela, mas fico feliz por ela ser hoje tão reconhecida e admirada por escrever justamente sobre estes temas, apesar de todas as adversidades por que passou. Sem dúvida, ela é um caso isolado entre muitos outros que não tiveram tanto sucesso, mas é importante vermos estes exemplos para estimular os novos jovens negros a não desistirem de tentar, como ela fez.

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