Nascida em 1977, faço parte da Geração X, aquela espremida entre os baby boomers e os millenials, entre o físico e o digital, entre vestir a camisa da empresa a qualquer custo e focar na saúde mental. Presenciei a democratização e a globalização do mundo, fui da Blockbuster ao Netflix, das fotos reveladas às digitais, dos LP's e fitas cassete ao Spotify.
Convivo muito com pessoas mais novas que eu, principalmente no ambiente profissional, e adoro contar histórias do século passado, quando a vida não era tão fácil como é hoje. Mesmo assim, devíamos aguentar todas as dificuldades da vida sem reclamar, sem mimimi. Só nos restava suportar e seguir em frente, não havia margem para objeção: devíamos obedecer nossos pais e nossos chefes, sem contestar.
Durante a minha infância, não havia streaming para assistir aos desenhos de que gostávamos, na hora que quiséssemos; víamos o que passava na TV aberta naquele horário, na maioria das vezes desenhos repetidos que já sabíamos de cor, pois o repertório era escasso. Assistíamos ao "Xou da Xuxa", a "Os Trapalhões", numa época em que nada era considerado politicamente incorreto, nem mesmo um chocolate em forma de cigarro com uma criança fumando na embalagem. Andávamos de carro sem cinto de segurança, as pessoas podiam fumar nos aviões e isso era considerado chic.
Eu adorava brincar de pular elástico. Colecionava papel de carta e tive uma Melissinha que vinha com uma pochetezinha. Fiz curso de datilografia e de Espanhol quando ainda nem havia o Mercosul. Jogava Pac Man e Enduro no videogame (Atari), mas não tinha um tablet para me entreter com um jogo ou um desenho quando meus pais queriam uma folga. Me lembro que sentia muito tédio quando não estava brincando com algum amigo, mas simplesmente era assim e precisava ter paciência.
Já na adolescência, dancei axé e lambada, ouvi muito rock brasileiro e até hoje penso que nunca mais haverá bandas (nacionais e internacionais) com a qualidade musical dessa época. Assistia aos clipes musicais na MTV e gravava fitas-cassete para não ter que comprar os LP originais. Quando gostava de uma música, ficava esperando que ela tocasse na rádio para gravar (e xingava quando o locutor falava no meio da música enquanto eu estava gravando!). Raramente tínhamos acesso às letras (no encarte do disco ou nas aulas de inglês) e criávamos nossa própria versão. Até hoje canto várias músicas com a letra inventada e lembro da ordem em que elas tocavam nos discos e fitas, de tanto que ouvíamos a mesma sequência.
Ah, os anos 80... Tudo era mais difícil mas, ao mesmo tempo, tudo era permitido!
Me lembro de quando descobriram a AIDS, da morte do Cazuza e do acidente dos Mamonas Assassinas. Do Plano Collor e da frequente troca de moedas (Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo e Cruzeiro Real), em que a cada mudança cortavam mais 3 zeros... Da inflação de mais de 50% ao mês, até que implantaram o Plano Real e o dólar valia R$ 1. Da queda do muro de Berlim ao 11 de setembro, da conquista do Tetra na Copa do Mundo de 94 ao 7 a 1 contra a Alemanha 20 anos depois...
Em 1994, viajei para os Estados Unidos para fazer intercâmbio, aos 17 anos, em minha primeira viagem de avião. Na hora do voo, não encontrei minha passagem (que, naquela época, era apenas impressa, em papel de seda) e só pude embarcar dois dias depois, quando conseguimos fazer a alteração na agência de viagem, em um dia útil e horário comercial. Quando precisava mandar algum documento urgente de lá, enviava por fax (cujo texto logo desaparecia do papel) e minha comunicação com o Brasil era feita apenas por carta, com uma ligação mensal para meus pais durante no máximo 5 minutos, porque custava muito caro. Até hoje tenho uma caixa com todas essas cartas guardadas que não tenho coragem de me desapegar.
Quando cursei Ciência da Computação na faculdade, ainda não havia Inteligência Artificial Generativa e a Internet estava apenas dando seus primeiros passos. Tínhamos que debugar nossos programas na raça e construir nosso próprio algoritmo. Ganhei meu primeiro computador (desktop, claro) quando passei no vestibular: um Pentium com Windows 95 e kit multimídia de última geração. Entregávamos nossos trabalhos impressos ou em disquete (3.5 polegadas, com capacidade de 1.44 MB), apresentávamos nossos trabalhos com transparências no retroprojetor e os professores ainda escreviam a matéria na lousa, com giz.
No dia da minha formatura da faculdade, fiquei desesperada por ter perdido um filme de 36 posições com quase todas as fotos da festa (que o meu amigo encontrou caído no caminho depois, ufa!). Muitas vezes, só descobríamos, meses depois, que aquela foto que tanto esperávamos tinha saído borrada ou queimada e, a partir daí, só podíamos contar com nossa memória para contar história. Ao mesmo tempo, ninguém filmava o que fazíamos de errado na balada, mas pra falar a verdade, nem fazíamos tanta coisa errada assim... Tivemos muitos amigos que ficaram perdidos pelo caminho que, em uma era pré-Facebook, só iremos reencontrar com muita sorte ou pelas coincidências da vida.
Quem, hoje em dia, imagina o mundo sem um smartphone, sem internet ou sem GPS?
Acredito que quem não viveu nessa época não percebe como hoje conseguimos as coisas sem muito esforço e, talvez, sem dar o devido valor a elas. Nós, da Geração X, vimos o mundo mudar, com a invenção do celular, da Internet e agora da IA. Salvamos nossas informações em disquetes, CDs, pen drives e na nuvem; ouvimos música em walkmans, diskmans e iPods; nos localizamos por mapas de papel, Guia 4 rodas e Google Maps; nos locomovemos por táxis, Uber e agora carros autônomos; enviamos cartas pelos correios, SMS e mensagens de WhatsApp; falamos no telefone de disco, usamos Internet discada e hoje fazemos vídeo chamadas; usamos cheques, mas sabemos fazer PIX e comprar passagem pela internet.
Somos versáteis e adaptáveis, aguentamos o tranco com mais naturalidade que as gerações posteriores, mas isso não significa que isso é melhor ou pior. As mudanças na tecnologia, na economia e no mercado de trabalho estão aí para ficar e o que temos de fazer é saber aproveitar o melhor que cada evolução tem a nos oferecer.
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