O mundo moderno é líquido.
Este conceito foi criado no ano 2000 pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman e se baseia na premissa de que, atualmente, tudo é flexível, frágil e temporário: nossos empregos, nossos relacionamentos, a tecnologia, o consumo. Em contrapartida, no mundo sólido dos séculos anteriores, as famílias eram tradicionais, os empregos eram fixos e os compromissos, duradouros.
No mundo líquido, tudo está em constante transformação e isso possui diversos impactos na nossa vida cotidiana: as relações afetivas se tornam mais superficiais e menos duradouras (o amor líquido); as pessoas se isolam cada vez mais devido à evolução da tecnologia; o consumismo gera prazer imediato; e temos uma sensação constante de insegurança em relação ao futuro (o medo líquido).
O livro "44 cartas do mundo líquido moderno" inclui uma compilação de cartas que foram escritas pelo próprio Bauman a uma revista feminina da Itália, de 2008 a 2009, comentando sobre os aspectos da modernidade. Neste artigo, cito algumas das teorias apresentadas no livro.
Enxurrada de informações (infobesity)
Hoje em dia, somos bombardeados por uma quantidade absurda de informações, infinitamente maior do que o nosso cérebro consegue processar.
Diariamente, recebemos milhares de e-mails e de mensagens inúteis. Propagandas, pesquisas de satisfação, newsletters, golpes e notícias irrelevantes invadem nossos feeds e caixas de entrada. Possuímos uma quantidade excessiva de fotos e vídeos em nossos celulares que nunca conseguimos visualizar e passamos um tempo desnecessário organizando todos esses arquivos. No passado, sobrevivíamos com uma capacidade de armazenamento de dados de poucos Megabytes, enquanto hoje, nosso drive de 1 TB na nuvem já não é mais suficiente para armazenar todas as informações que possuímos.
Fear of missing out (FOMO)
O mundo está cheio de oportunidades sedutoras e temos medo de ficar de fora de qualquer uma delas. Precisamos saber de todas as notícias do mundo, conhecer os últimos memes, as músicas mais ouvidas, os looks da moda, os posts das celebridades, as dancinhas do Tik Tok... Precisamos estar a par de tudo o que está sendo comentado e é um absurdo se não soubermos, por exemplo, o que significa a sigla FOMO. Se não estivermos antenados a todas essas novas tendências, seremos completos fracassados.
Além disso, precisamos mostrar para as pessoas o que estamos fazendo; queremos que elas vejam uma versão nossa que muitas vezes é irreal ou apenas a ponta de um iceberg. O que mais importa é sermos vistos e não o que estamos pensando, quais são os nossos sonhos ou por que fazemos o que fazemos.
Estamos em meio a uma crise de privacidade em que o modelo de sucesso atual é estarmos constantemente expostos ao olhar do público, mesmo que de forma absolutamente superficial. Queremos que as pessoas vejam nosso perfil o tempo todo, imploramos que elas curtam e compartilhem nossos stories, para assim sermos aceitos no mundo das celebridades e podermos monetizar às custas dos nossos seguidores, que nem sequer conhecemos pessoalmente.
Sozinhos no meio da multidão
Atualmente, todos nós temos centenas de contatos na agenda, de amigos no Facebook e de seguidores no Instagram e, mesmo assim, estamos nos sentindo sozinhos. Podemos mandar mensagens para uma quantidade imensa de pessoas em um piscar de olhos, mas temos dificuldade de marcar um encontro presencial. Com isso, nos isolamos cada vez mais e nos sentimos cada vez mais sozinhos...
O celular diminuiu a distância entre o tempo público e o privado, entre o espaço público e o privado, entre a casa e o local de trabalho, entre o trabalho e o lazer. Devemos estar constantemente acessíveis e disponíveis.
Muitas pessoas tentam escapar da solidão através de relacionamentos virtuais. Porém, quando estamos conectados, temos menos chances de nos comunicar com pessoas reais, no mundo real. Na modernidade líquida, somos todos "solitários conectados".
Relações virtuais descartáveis
O mundo online possui infinitas possibilidades de contatos, reduzindo a duração dessas interações e enfraquecendo os laços afetivos. Em contrapartida, o mundo offline se apoia no fortalecimento e no aprofundamento de vínculos, enquanto limita o número de contatos.
Numa vida atual de emergências, as relações virtuais são facilmente priorizadas em relação às presenciais, pois nos protegem das conexões mais profundas. Fazer contato visual com outro ser humano nos parece uma perda de tempo.
A quantidade de conexões (e não a qualidade) é o que importa. Os encontros pessoais são substituídos pelo contato com telas, que limitam a intimidade e a durabilidade das relações. Como consequência, os vínculos afetivos tornam-se frágeis e facilmente descartáveis.
Prazer instantâneo
No mundo líquido moderno, existe uma abundância de oportunidades de prazer e tudo é facilmente acessível.
Os produtos estão prontos para o consumo e o prazer torna-se instantâneo. Ao encontrarmos um parceiro afetivo, o processo de sedução não é mais necessário para a conquista. Ao pedir uma pizza ou chamar um táxi, é só clicar em um botão no celular. Não temos mais paciência para aguardar poucos minutos por uma entrega ou por uma mensagem.
A conveniência reduz o esforço e aumenta a certeza de que rapidamente iremos conseguir o que queremos. E, como damos mais valor às coisas difíceis de conquistar, nossa satisfação diminui a cada cada conquista.
Tentamos evitar a qualquer custo os compromisso de longo prazo e os juramentos de fidelidade eterna, seja no amor, nos negócios ou no trabalho, uma vez que essas obrigações limitam a nossa liberdade. A perspectiva de assumir qualquer relacionamento sólido pelo resto da vida nos parece assustadora pois temos a sensação de que estamos perdendo todas as outras infinitas oportunidades.
Somos o que compramos
A internet e as redes sociais potencializaram nosso consumismo. Compramos por impulso e somos incapazes de resistir à urgência de possuir qualquer objeto da moda. Para sermos aceitos, precisamos ter o celular de última geração, os acessórios das marcas famosas ou as experiências exclusivas das celebridades. E, com a mesma velocidade em que esses objetos se popularizam, eles saem de moda. Tudo é facilmente descartável.
O objetivo das empresas de sucesso do século XXI é criar produtos de que seus clientes nem imaginam que precisam. O lucro (de preferência, de dois dígitos) e o crescimento progressivo são mais importantes para as organizações do que a satisfação das necessidades dos seus clientes. E este consumismo mundial desenfreado está ocasionando impactos climáticos significativos em todo o mundo.
Da escassez à abundância
Ao contrário do passado, quando havia escassez de comida, de ofertas de emprego e de opções de compra, no presente vivemos em um mundo de abundância e desperdício.
Enquanto o mercado de trabalho do mundo sólido era marcado por empregos estáveis e carreiras eternas, no mundo líquido ele é caracterizado por contratos temporários, terceirização e informalidade. Nosso currículo será muito mais valorizado se não ficarmos por muito tempo em um mesmo emprego.
Enquanto a escassez de trabalho de antes nos tornava funcionários dedicados, obedientes e comprometidos, hoje não toleramos mais nenhum tipo de dificuldade no ambiente corporativo. Queremos trabalho remoto, jornadas de trabalho flexíveis e maior participação nos lucros das empresas e, ao mesmo tempo, queremos trabalhar menos, com crescimento de carreira exponencial e garantia de saúde mental.
Incompreensão crescente
As coisas já não são como costumavam ser no passado e o mundo atual é totalmente diferente daquele da infância de nossos pais. O que hoje parece certo amanhã será estranho; e o que para certas idades é uma situação agradável, para outras pode ser um tormento.
Estas diferenças são naturais entre gerações, mas no mundo moderno, se tornaram mais visíveis, devido à velocidade em que as mudanças ocorreram.
Afinal, o que nós podemos fazer para sobreviver nesse mundo líquido moderno?
Precisamos estar prontos para nos transformar constantemente. A flexibilidade e adaptabilidade do ser humano são características imprescindíveis para o nosso crescimento. Precisamos aprender, desaprender e reaprender a cada mudança.
Priorizar os contatos pessoais sempre que possível, mesmo sem eliminar as conexões virtuais. Sermos mais tolerantes com as pessoas, embora pensem de forma diferente. Lidar com o excesso de opções e filtrar as informações que realmente importam.
Por fim, precisamos saber lidar com nossa ansiedade e nossa insegurança sobre o futuro. Pois não sabemos se amanhã nosso emprego irá existir, se haverá uma nova pandemia ou um evento climático devastador. A única certeza que temos é que o mundo irá mudar cada vez mais rapidamente...

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