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Meu avesso da jornada do herói

Ao ouvir o episódio O avesso da jornada do herói, do podcast Mamilos, não pude deixar de pensar na minha própria jornada e como ela se conecta com muitas confissões que foram feitas pelos participantes daquele episódio. 

Me identifiquei muito com a Ju Wallauer, quando ela disse que não tem coordenação nenhuma para esportes, e que, na época de escola, ninguém a escolhia para o time na Educação Física. Por causa disso, assim como ela, eu também sempre fui adepta dos esportes individuais, como corrida, bike, yoga e natação. 

Já com a Cris Bartis, me identifiquei com o seu oposto no que diz respeito a namorar. Ao contrário dela, durante a adolescência (e até na juventude), eu era muito tímida, e mesmo quando estava a fim do cara, não conseguia dar a entender a ele que eu queria... Montava minha cara de brava e ia embora sempre sozinha (e frustrada) da balada. 

Quando nos vemos nas redes sociais, somos sempre bonitos, inteligentes, bem-sucedidos, temos dinheiro para comer em restaurantes caros e fazer viagens ao redor do mundo. Mas, o que está por trás de tudo isso que as pessoas não veem? 

Até mesmo as pessoas que admiramos passaram por vários insucessos na vida. Gosto de ler diversas biografias das pessoas que admiro e todas elas tiveram muitos desses momentos. E mesmo assim, continuamos admirando estas pessoas! Então, por que não continuamos nos auto admirando também?

Eu poderia dizer aqui que sempre estudei nas melhores escolas e universidades, que trabalhei em empresas multinacionais e que morei fora do país três vezes. E tudo isso seria verdade. Nos mostramos seguros para os outros, enquanto no fundo, sentimos medo. Medo de não estarmos preparados para os desafios, para as mudanças, para o novo.   

E então, assim como naquele podcast, comecei a pensar sobre o meu avesso da jornada do herói, relembrando de todos os meus supostos fracassos e como eles fazem parte da minha história. 

Eu sou aquela que entra várias vezes na fila do pão e do café. Que acredita que sorte, além de estar no lugar certo na hora certa, é estar preparado para o que é oferecido a você. E que passou a se admirar e se sentir realizada depois de muitos anos. 

Como eu disse, fui uma criança tímida, com poucos amigos, que não brincava na rua com a turma. Minhas irmãs, bem mais velhas, já não moravam mais em casa, e fui praticamente filha única. Me lembro de me sentir muito entediada desde criança e que eu sempre queria ter alguém para brincar. Fazia aula de piano, coral, inglês e espanhol para preencher as minhas tardes. Era uma criança muito estudiosa e ativa, o que levo na minha personalidade até hoje.  

Na adolescência, era complexada por ser muito magra, e praticamente não tinha autoestima. Desde aquela época já sonhava com um príncipe encantado, e demorei para dar o meu primeiro beijo, para transar pela primeira vez... 

Nesta fase, já tinha muitos amigos, que levo até hoje no meu coração. Andava muito de bicicleta pela cidade, saía todo fim-de-semana para me divertir e, sendo de uma cidade pequena no interior, tinha muita liberdade para fazer o que eu queria, apesar da educação rígida dos meus pais. 

Segui o meu sonho de fazer um intercâmbio de 1 ano nos EUA e foi um perrengue. Lá, eu não tinha mais tantos amigos, não tinha mais tanta liberdade. Chorava muito de saudade, mas aguentei até o final e nunca desisti. 

A época da faculdade me libertou. Deixei de ser tímida, fiz muitos amigos (que também levo até hoje no meu coração) e tive meu primeiro namorado de verdade. Não gostei do meu curso de Ciência da Computação e, ao concluir, entrei em uma crise existencial que durou uns 10 anos, até eu me encontrar profissionalmente como Gerente de Projetos. 

Me lembro de chorar no meu primeiro emprego porque eu não era especialista em nada, porque não era insubstituível. Mal sabia que eu nunca seria. Passei por muitos trabalhos ruins e até mesmo tóxicos, em uma época em que o normal era trabalhar muitas horas extras sem receber por isso. Tive chefes autoritários e sofri assedio moral e sexual no trabalho. 

Até que eu surtei e pedi demissão, o que me levou a ter muitas dúvidas se queria continuar no ambiente corporativo. Fui diagnosticada com ansiedade e depressão e, até hoje, em muitos momentos, ainda sofro da síndrome do impostor. 

Hoje, olho para trás e enxergo apenas as minhas conquistas. Me sinto realizada e feliz no trabalho, no relacionamento, na família. Sinto que minha vida é um sucesso. Mas não porque as coisas começaram a dar certo de repente. Fui eu que mudei. Eu que mudei minhas métricas. Eu que ressignifiquei o  meu sucesso.

Não tenho mais a pretensão de ser perfeita como antes. Consigo ser feliz com o que tenho e não preciso de nada mais. Sei que eu construí tudo isso e que todos esses "fracassos" da minha vida me fizeram ser quem sou e, principalmente, me fizeram ser muito mais forte. E, por isso, não trocaria nenhum desses perrengues por uma vida mais fácil e sem esforço. Não trocaria a minha vida por nada. 

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